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  • Comissionamento em agência de viagens: guia com modelo

    Comissionamento em agência de viagens: guia com modelo

    Comissionamento em agência de viagens funciona quando a agência decide e escreve três coisas: sobre o que a comissão é calculada (valor vendido ou margem), quando ela é paga e o que acontece se a viagem for cancelada. As respostas mudam conforme quem vende: vendedor contratado pela CLT ou consultor parceiro com CNPJ. A maioria das agências tem os dois.

    Resumo rápido

    • Comissão sobre a margem paga quem traz lucro. Comissão sobre a venda paga quem traz volume, e às vezes premia o desconto.
    • Com vendedor CLT, a lei já responde parte das perguntas: prazo de pagamento, cancelamento e reflexos no salário.
    • Com consultor PJ, quem responde é o contrato de parceria, e a parceria precisa ser de verdade: autonomia, nota fiscal e repasse por resultado.

    Antes de começar: eu não sou advogado nem contador. O que está aqui é o lado operacional, do jeito que as agências trabalham, com a base legal citada no fim para você levar a quem cuida do seu jurídico e da sua contabilidade.

    Por que a comissão vira briga na agência?

    Porque quase sempre ela mora na cabeça do dono.

    A regra foi combinada de boca, anos atrás, com o primeiro vendedor. Depois entrou outra pessoa, veio um consultor home office, apareceu a primeira viagem cancelada, o primeiro cliente dividido entre dois atendentes, o primeiro desconto dado para fechar. E cada caso foi resolvido de um jeito.

    No fechamento do mês, o vendedor faz uma conta e o dono faz outra. Ninguém está mentindo. Só não existe uma regra para os dois conferirem.

    Por isso eu começo qualquer conversa sobre comissão pela mesma pergunta: está escrito? Se não está, o primeiro trabalho não é mudar o percentual. É escrever o que já existe.

    Comissão sobre a venda ou sobre a margem: qual escolher?

    São os dois modelos principais do mercado, e valem tanto para o vendedor CLT quanto para o parceiro PJ.

    • Sobre a venda: o vendedor recebe um percentual do valor total vendido. É simples de calcular e fácil de explicar.
    • Sobre a margem (rentabilidade): o vendedor recebe uma parte do que a venda deixou para a agência. É o valor pago pelo cliente menos o que foi para os fornecedores e os custos daquela venda, como taxa do cartão, brinde e envio.

    Um exemplo, com números ilustrativos. A Ana vendeu um pacote de R$ 50 mil, que deixou R$ 4 mil de margem para a agência. O Bruno vendeu um roteiro de R$ 20 mil, montado com mais serviço, que também deixou R$ 4 mil.

    • Com 3% sobre a venda, a Ana recebe R$ 1.500 e o Bruno, R$ 600.
    • Com 25% sobre a margem, os dois recebem R$ 1.000.

    Para a agência, as duas vendas valeram o mesmo. Só um dos modelos enxerga isso.

    Tem outro efeito, menos visível: o desconto. Na comissão sobre a venda, o vendedor que dá 5% de desconto para fechar quase não sente no bolso; quem sente é a agência. Na comissão sobre a margem, o desconto sai dos dois. A conversa sobre desconto fica bem mais madura.

    A minha preferência é pela margem. Ela só funciona, porém, se a agência souber calcular a margem de cada venda, inclusive a taxa de serviço (a DU), que muitas vezes é a única receita de uma passagem aérea. Se hoje você não sabe quanto cada venda deixou, comece por aí antes de trocar o modelo.

    Comparação da comissão da Ana e do Bruno: 3% sobre a venda paga R$ 1.500 e R$ 600; 25% sobre a margem paga R$ 1.000 para cada

    Over, escada e meta de equipe: quando usar?

    São complementos do modelo principal, não substitutos.

    • Over de equipe: um adicional pago a todos quando a agência bate a meta do mês. Exemplo: o vendedor recebe 10% e, com a meta batida, ganha mais 4 pontos sobre as vendas daquele mês. Serve para criar o “nós”: ninguém ganha o over sozinho.
    • Escada (comissão por gatilhos): o percentual sobe conforme o vendedor passa de patamares. Exemplo: 6% até R$ 10 mil de margem, 7% de R$ 10 mil a R$ 20 mil e 8% acima disso.

    A escada tem uma armadilha que eu vejo gerar mais discussão do que o próprio percentual: o novo percentual vale para o mês inteiro ou só para o que passou do patamar?

    Se o vendedor fecha o mês com R$ 20.500 de margem e os 8% valem para tudo, a conta é uma. Se valem só para os R$ 500 que passaram de R$ 20 mil, é outra. As duas formas são legítimas. A que não funciona é não dizer qual é.

    Com parceiro PJ, prefira a escada e o bônus por resultado ao over de equipe com meta imposta. Parceiro com meta obrigatória e cobrança de chefe começa a parecer funcionário, e isso tem consequência (já explico abaixo).

    Vendedor CLT ou consultor PJ: o que muda na comissão?

    Os dois formatos são comuns no turismo, e muitas agências misturam: equipe interna contratada e consultores parceiros, muitas vezes home office, vendendo com a estrutura da agência. O modelo de cálculo pode ser o mesmo. O que muda é o resto.

    • Como recebe. CLT: salário (fixo ou só comissão) com a comissão na folha. PJ: repasse da comissão contra nota fiscal da empresa dele.
    • Quando recebe. CLT: todo mês, com prazo máximo definido em lei. PJ: o que o contrato disser, em geral depois que a agência recebe.
    • Viagem cancelada. CLT: a agência não pode tirar a comissão de volta, salvo exceção rara. PJ: o contrato pode prever a devolução do repasse.
    • 13º, férias, FGTS e descanso semanal. CLT: a comissão entra no cálculo de todos. PJ: não tem nenhum deles. É empresa prestando serviço para empresa.
    • Custo para a agência. CLT: a comissão de 3% custa mais que 3%, por causa dos encargos. PJ: o repasse é o custo, e o parceiro cuida dos impostos dele.
    • O cuidado principal. CLT: cumprir prazo e reflexos. PJ: manter a parceria como parceria, sem virar emprego disfarçado.

    Agora, cada um com mais detalhe.

    Como funciona a comissão do vendedor CLT?

    Tudo nesta seção vale só para quem tem carteira assinada.

    • Prazo. A comissão é paga todo mês, com um extrato das vendas fechadas. Empresa e funcionário podem combinar outra data, mas ela não pode passar de três meses depois que a venda foi aceita (Lei 3.207/1957, art. 4º). Pense numa viagem vendida em março para embarque em dezembro: pagar a comissão só depois do check-out não cabe nesse prazo.
    • Viagem cancelada. A lei só autoriza tirar de volta uma comissão já paga se o comprador ficar insolvente, sem condições de pagar (art. 7º da mesma lei). Desistência e simples atraso de pagamento não entram, e os tribunais vêm decidindo assim mesmo quando há cláusula no contrato.
    • Salário. A comissão integra o salário (CLT, art. 457). Por isso entra no 13º, nas férias, no FGTS e no descanso semanal remunerado (Súmula 27 do TST). Quem recebe só comissão tem garantido pelo menos o salário mínimo no mês (Constituição, art. 7º, VII).

    Na prática, o que resolve a maior parte dos problemas é definir quando uma venda conta como fechada. Por exemplo: sinal confirmado e reserva confirmada pelo fornecedor. A partir daí, a comissão é do vendedor, e o prazo começa a contar.

    Como funciona o repasse do consultor parceiro PJ?

    Aqui a lógica é de parceria entre empresas. O consultor tem CNPJ (existe inclusive a ocupação de agente de viagens independente no MEI), usa a estrutura da agência para vender e recebe uma parte do que a venda deixou.

    O que costuma funcionar no dia a dia:

    • Repasse sobre a margem. O consultor fica com uma fatia da receita da agência naquela venda. O percentual depende do que a agência entrega: fornecedores, sistema de reservas, emissão, financeiro, suporte em viagem.
    • Pagamento depois do recebimento. A agência repassa quando o dinheiro dela entra, contra nota fiscal do consultor. Para o PJ, esse modelo é natural.
    • Cancelamento no contrato. Se a agência devolve a receita ao cliente ou ao fornecedor, o contrato pode prever que o repasse também volta, ou que fica só a parte da multa que ficou com a agência.
    • Carteira de clientes. O cliente que o parceiro trouxe é de quem? Se ele sair, leva? Escreva isso no começo, não na despedida.

    O que mantém o PJ como parceiro, e não como funcionário?

    A lei permite contratar autônomo, com ou sem exclusividade, desde que as formalidades sejam cumpridas (CLT, art. 442-B). Mas o que vale é a rotina, não o papel. Se o “parceiro” tem chefe dando ordens, horário controlado, ponto, meta com punição e não pode recusar trabalho, a Justiça pode entender que existe vínculo de emprego (CLT, art. 3º). Aí a conta da CLT vem inteira, para trás: 13º, férias, FGTS e o resto.

    O assunto ainda está em discussão no Supremo Tribunal Federal (Tema 1.389, sobre a validade da contratação de autônomos e PJ). Enquanto não há uma tese final, cada caso é julgado pelos fatos.

    No operacional, eu olharia para estes sinais:

    • o parceiro organiza a própria agenda e o próprio jeito de atender;
    • recebe por resultado, sem um “fixo” mensal que funcione como salário;
    • emite nota fiscal de cada repasse;
    • tem contrato escrito, com repasse, prazo, cancelamento e carteira;
    • não é cobrado nem punido como funcionário.

    Se a sua realidade é de equipe com horário, chefe e meta diária, o formato certo provavelmente é CLT. Vale a conversa com o advogado antes de assinar.

    E os casos do dia a dia, que valem para os dois?

    Seja CLT ou PJ, escreva o que acontece nestas situações. São elas que geram a briga no fim do mês:

    • Remarcação: a venda continua sendo do mesmo vendedor? A diferença de tarifa gera comissão?
    • Multa de cancelamento que fica com a agência: gera comissão sobre essa parte?
    • Crédito para uma viagem futura: quando vira nova venda, a comissão é de quem?
    • Venda dividida: um atendeu, o outro fechou. Como divide?
    • Cliente da casa e indicação: cliente antigo da agência paga a mesma comissão que cliente novo trazido pelo vendedor?
    • Desconto: até quanto o vendedor pode dar sozinho? Acima disso, quem aprova?

    E quem não vende? Back-office também entra?

    Deveria. A pessoa da emissão, do financeiro e do pós-venda segura a venda que o vendedor fechou.

    Para essas áreas, a comissão não costuma fazer sentido. O que funciona melhor é bônus por indicador, combinado no começo do período. Alguns exemplos que eu usaria numa agência:

    • emissões sem erro no mês;
    • pendências resolvidas antes do embarque;
    • conciliação do financeiro fechada no prazo;
    • avaliação do cliente no pós-viagem.

    E nem todo prêmio precisa ser dinheiro. Reconhecimento, folga, treinamento e um encontro da equipe quando a meta sai também contam. Se a pessoa é CLT, confirme com o contador como o bônus entra na folha.

    Checklist com as 5 regras de comissão que precisam estar escritas: base, escada, quando paga, cancelamento e desconto

    Como criar a política de comissão da agência, passo a passo

    Se eu fosse escrever a política de uma agência hoje, faria nesta ordem:

    1. Comece pelo objetivo da agência. Quer crescer a carteira? Pague mais por cliente novo. Quer cuidar de quem já compra? Fixo maior e comissão menor favorecem o relacionamento.
    2. Separe os formatos. Liste quem é CLT e quem é parceiro PJ. A regra de cálculo pode ser a mesma; prazo, cancelamento e contrato não são.
    3. Escolha a base: venda ou margem. Se for margem, defina o que entra no custo (taxa de cartão, antecipação, brinde, envio).
    4. Defina o percentual por nível (júnior, pleno, sênior; ou faixas de parceiro) e use o mesmo acordo para todos do mesmo nível.
    5. Escreva a escada e o over, se houver, dizendo se o novo percentual vale para o total ou só para a faixa.
    6. Diga quando a venda conta como fechada e quando paga: no CLT, dentro do prazo da lei; no PJ, depois do recebimento, contra nota fiscal.
    7. Escreva os casos do dia a dia: remarcação, multa, crédito futuro, venda dividida, cliente da casa e desconto.
    8. Teste com três vendas reais do mês passado. Calcule pela regra nova e compare com o que foi pago. Se a conta surpreender alguém, ajuste antes de anunciar.
    9. Valide com o contador e com o advogado, apresente por escrito e marque uma revisão a cada seis meses.

    Modelo de política de comissão para copiar e adaptar

    Um ponto de partida. Troque os campos entre colchetes pela realidade da sua agência e passe pelo contador e pelo advogado antes de usar.

    Parte 1: regras que valem para todos

    • Objetivo. Esta política remunera [a margem que cada venda deixa para a agência / o volume vendido] e premia [clientes novos / fidelização].
    • Base de cálculo. [X%] sobre [valor da venda / margem da venda]. Margem é o valor pago pelo cliente menos fornecedores, taxa de serviço repassada, taxa de cartão e antecipação, brindes e envio.
    • Escada. [faixas e percentuais]. O novo percentual vale para [o total do mês / só a faixa].
    • Venda fechada. A venda conta como fechada quando [sinal confirmado + confirmação do fornecedor].
    • Casos do dia a dia. Remarcação: [regra]. Multa que fica com a agência: [regra]. Crédito futuro: [regra]. Venda dividida: [divisão]. Cliente da casa e indicação: [regra]. Desconto acima de [Z%] só com aprovação de [quem].
    • Revisão. Vale a partir de [data] e é revista a cada seis meses. Mudança só vale para vendas futuras e é comunicada por escrito.

    Parte 2: vendedor CLT

    • Pagamento. Todo dia [N] do mês, com extrato das vendas fechadas no período. Prazo máximo de três meses depois do fechamento.
    • Cancelamento. Comissão de venda fechada não é descontada por desistência do cliente.
    • Over de equipe. [Y pontos] para todos quando a agência atingir [meta].
    • Folha. Comissões entram no 13º, nas férias, no FGTS e no descanso semanal, conforme cálculo da contabilidade.

    Parte 3: consultor parceiro PJ (vai no contrato de parceria)

    • Repasse. [X%] da [margem / receita da agência] em cada venda do parceiro.
    • Pagamento. Até [N] dias depois do recebimento pela agência, contra nota fiscal do parceiro.
    • Cancelamento. Se a agência devolver a receita, o repasse correspondente [é devolvido / é abatido do próximo]. Se ficar multa com a agência, o parceiro recebe [regra].
    • Carteira. Clientes trazidos pelo parceiro [continuam com ele / ficam com a agência] se a parceria terminar.
    • Autonomia. O parceiro organiza a própria agenda e forma de trabalho e responde pelos próprios impostos.

    Onde essa regra deveria morar?

    No papel, junto com o resto do jeito de a agência trabalhar. A política de comissão é igual a qualquer processo: quando fica só na cabeça do dono, toda dúvida volta para ele, e cada caso é resolvido de um jeito.

    Foi para tirar a agência da cabeça do dono que eu criei a Agência Organizada. É o método que eu uso na minha consultoria, num portal: assistentes de IA entrevistam você, por texto ou áudio, e transformam as respostas em documentos da agência, do processo comercial aos checklists da operação.

    Um dos bônus conversa direto com este artigo: o Analista de Rentabilidade. Você passa as comissões, as taxas e os custos e pergunta qual é a contribuição de uma venda e o que muda se der desconto. Ele organiza os cenários; os números você confere. É a conta da Ana e do Bruno, feita com as vendas da sua agência.

    O lançamento tem condição especial para as 30 primeiras agências. Os detalhes estão no site.

    Perguntas frequentes

    Qual é a comissão média de um agente de viagens?

    Não existe um número único: depende do modelo (venda ou margem), do produto, do formato (CLT ou PJ) e de quanto a agência paga de fixo. Mais útil do que copiar a média é calcular quanto cada venda deixa para a agência e definir uma parte dessa margem que caiba no seu custo.

    Posso descontar a comissão se o cliente cancelar a viagem?

    Depende do formato. Para vendedor CLT, a lei só permite o estorno se o cliente ficar insolvente, e os tribunais vêm negando o desconto por desistência. Para parceiro PJ, vale o que estiver no contrato de parceria.

    Consultor PJ tem direito a 13º e férias?

    Não. Ele é uma empresa prestando serviço e recebe só o repasse combinado. Se a relação tiver subordinação, horário controlado e cobrança de funcionário, porém, a Justiça pode reconhecer vínculo de emprego, e aí esses direitos passam a ser devidos.

    Posso pagar a comissão só depois do embarque do cliente?

    Para parceiro PJ, sim, se estiver no contrato. Para vendedor CLT, a lei manda pagar mensalmente e permite outra data de até três meses depois do fechamento, o que não cobre viagens vendidas com muita antecedência.

    Agente de viagens pode ser MEI?

    Pode. A ocupação “agente de viagens independente” (CNAE 7911-2/00) está na lista de atividades permitidas ao MEI. Confira com o contador o limite de faturamento e as obrigações, como o Cadastur.

    Fontes e base legal

    • Lei 3.207/1957, que regula a comissão do empregado vendedor: art. 3º (venda aceita), art. 4º (pagamento mensal e prazo máximo de um trimestre) e art. 7º (estorno só por insolvência do comprador).
    • CLT (Decreto-Lei 5.452/1943): art. 3º (quem é empregado), art. 442-B (contratação de autônomo), art. 457 (comissão integra o salário) e art. 466 (comissão é devida depois de concluída a venda).
    • Constituição Federal, art. 7º, VII: garantia de salário mínimo para quem recebe remuneração variável.
    • Súmulas do TST, Súmula 27: descanso semanal remunerado do comissionista.
    • Decisões sobre estorno de comissão por cancelamento, resumidas no Migalhas e no COAD.
    • STF, Tema 1.389, sobre a validade da contratação de autônomos e PJ, e a notícia do TST sobre o andamento dos processos.
    • Portal do Empreendedor (gov.br): ocupações permitidas ao MEI, incluindo agente de viagens independente.

    Conteúdo informativo, revisado em outubro de 2026. Não substitui a orientação do seu advogado e do seu contador para o caso da sua agência.

  • Agentes de viagens usam inteligência artificial?

    Agentes de viagens usam inteligência artificial?

    Sim, e já são maioria. Numa pesquisa da Takedown Research para a Amadeus com mais de 750 profissionais de venda de viagens, mais de 3 em cada 4 disseram que a IA faz parte das ferramentas de venda. Nas Américas, porém, 35% dizem que ainda não usam IA para vender.

    Resumo rápido

    • A IA entra em quatro pontos da venda: pesquisar opções, comparar conteúdos, montar recomendações e ganhar produtividade. A IA de conversa é o uso principal em todas as regiões.
    • As Américas são a região mais cautelosa, e o próprio estudo diz que isso pode mudar conforme as ferramentas entrarem no dia a dia.
    • Meu conselho: começar por uma tarefa que você já faz e conferir sempre descrição e tarifa antes de mandar qualquer coisa ao cliente.

    O que a pesquisa da Amadeus descobriu?

    Que a IA já faz parte da rotina de venda da maioria dos agentes que trabalham com os grandes sistemas de distribuição.

    O estudo é feito a cada dois anos e, desta vez, ouviu mais de 750 profissionais de venda que usam Amadeus, Sabre e Travelport, com os resultados ponderados para representar todas as regiões por igual. A Amadeus publicou os destaques no próprio site em 29 de setembro, e o Travel Tech Hub trouxe os números para o português em 13 de outubro.

    Mais de 3 em cada 4 agentes dizem que a IA faz parte das ferramentas de venda. Mas o retrato muda de região para região:

    • Na Ásia-Pacífico, os agentes já usam aplicações mais avançadas, como sugestão de roteiro (36%), recomendação dentro do CRM (32%) e ferramentas de fraude ou controle de qualidade (21%).
    • Na Europa, Oriente Médio e África, 62% usam IA de conversa, como ChatGPT, Copilot e Gemini.
    • Nas Américas, 35% dizem que não usam IA para vender.

    Repara num detalhe. Em média, esses agentes acessam os GDS mais de seis vezes por dia e ficam quase oito horas conectados. Não é um grupo distante da tecnologia. Mesmo assim, nas Américas, mais de um em cada três ainda não levou a IA para a venda.

    Slide com os números da pesquisa: mais de 75% dos agentes usam IA nas ferramentas de venda no mundo e 35% dos agentes das Américas dizem que não usam

    Onde a IA já entra na venda de viagens?

    Em quatro pontos, segundo os próprios agentes: pesquisar opções, comparar conteúdos, montar recomendações e ganhar produtividade.

    Nenhum desses usos é uma tarefa nova. É o que o agente já faz todo dia, só que com ajuda. Na prática, eu traduzo assim:

    • Pesquisar opções: levantar hotéis, bairros ou passeios que cabem no perfil do cliente antes de abrir o sistema para cotar.
    • Comparar conteúdos: pôr lado a lado o que dois hotéis dizem sobre quarto, café da manhã, localização e política de cancelamento.
    • Montar recomendações: transformar o que o cliente contou no atendimento numa sugestão com cara de consultoria.
    • Ganhar produtividade: resumir uma conversa longa, revisar uma proposta, responder mais rápido.

    O uso que mais aparece em todas as regiões é o mais simples: conversar com a IA. Para começar, ninguém precisa contratar sistema novo nem esperar a ferramenta perfeita.

    A pesquisa também conta que ferramentas de busca automática de tarifa e plataformas de sugestão de roteiro com IA já são usadas por 29% dos agentes no mundo, cada uma. Vale acompanhar. Mas não é por aí que eu começaria.

    Slide com os quatro usos de IA citados pelos agentes: pesquisar opções, comparar conteúdos, montar recomendações e ganhar produtividade

    Por que os agentes das Américas estão mais cautelosos?

    A pesquisa não explica o motivo. Ela registra a cautela e arrisca uma previsão: isso pode mudar conforme as ferramentas entrarem no fluxo do dia a dia.

    Eu concordo com a previsão e acrescento uma leitura minha. Cautela, por si só, não é atraso. O agente de viagens lida com dinheiro, documento e expectativa do cliente. Desconfiar de uma ferramenta que pode inventar uma informação é saudável.

    O problema começa quando a cautela vira espera. Espera pelo sistema certo, pelo curso completo, pela semana em que a agência estiver menos corrida. Essa semana quase nunca chega.

    Por isso eu gosto de inverter a pergunta. Em vez de “que ferramenta de IA eu devo usar?”, pergunte “qual tarefa da minha semana dá mais trabalho e se repete?”. A IA entra por ali.

    Onde os agentes acham que a IA pode ajudar mais?

    Em todas as regiões, os agentes apontaram as mesmas áreas: sugestões de preço e de venda adicional, recomendação de hotel, inspiração de destino e comparação de conteúdo.

    Repara que a lista é toda de trabalho de venda. O que aparece ali é apoio para o agente chegar mais rápido a uma boa sugestão e não esquecer de oferecer o que faz sentido para aquela viagem, como um seguro, um transfer ou um passeio.

    É também onde mora o risco de exagero. Uma sugestão de venda adicional que não conversa com o perfil do cliente soa como empurrar produto. A IA pode listar as opções. Escolher qual oferecer, e como, é decisão de quem conhece quem vai viajar.

    Slide com as áreas em que os agentes veem espaço para a IA: sugestão de preço e venda adicional, recomendação de hotel, inspiração de destino e comparação de conteúdo

    O que a IA não substitui na comparação de hotéis?

    A conferência. A IA compara o que está escrito, e o que está escrito nem sempre está completo.

    A mesma pesquisa mostra que 90% dos agentes usam as descrições fornecidas pelos hotéis para comparar e recomendar. E 94% consideram a paridade de tarifas altamente importante: 63% dizem que procurariam outra opção se percebessem preço diferente entre canais.

    Junta as duas coisas e o papel de quem vende fica claro. Se a descrição do hotel não fala da obra na piscina, a comparação feita pela IA também não vai falar. Se a tarifa que ela encontrou não bate com a do sistema, quem responde para o cliente é você.

    É a mesma lógica que eu repito sobre contexto: a IA é tão boa quanto o que você dá para ela. Na comparação de hotéis, isso vale para a descrição, para a tarifa e para o que você sabe do cliente.

    Slide com duas fichas de hotel lado a lado e o lembrete de que 90% dos agentes usam as descrições dos hotéis para comparar e recomendar

    Como começar a usar IA na venda sem mudar de sistema?

    Escolha uma tarefa que você já faz toda semana e teste com a IA de conversa que você tem à mão. Aqui vão três pedidos prontos para adaptar:

    1. Comparar dois hotéis: “Compare os dois hotéis abaixo para um casal em lua de mel, usando só as descrições que eu colei. Mostre o que muda em quarto, café da manhã, localização e cancelamento. Se alguma informação não estiver no texto, diga que não está.”
    2. Rascunho de proposta: “A partir das anotações do atendimento abaixo, escreva um rascunho de proposta em tom próximo, com destino, datas, perfil dos viajantes e três sugestões de passeio. Não invente preço.”
    3. Venda adicional: “Para esta viagem, liste serviços que fazem sentido oferecer, como seguro, transfer ou passeio, e explique em uma frase por que cada um ajuda o cliente.”

    Uma regra vale para os três: antes de mandar qualquer coisa ao cliente, confira tarifa, datas e política no sistema e com o fornecedor. A IA acelera o rascunho. A responsabilidade continua sua.

    Se você quer ir além do primeiro teste, eu escrevi sobre as competências que separam quem opera a IA de quem é operado por ela no texto O Agente do Futuro: os 5 Cs da IA no turismo.

    Slide com três tarefas para começar a usar IA na venda: comparar dois hotéis, transformar anotações do atendimento em proposta e pedir ideias de serviço adicional

    Perguntas frequentes

    Quantos agentes de viagens usam inteligência artificial?

    Segundo a pesquisa da Takedown Research para a Amadeus, mais de 3 em cada 4 profissionais de venda de viagens dizem que a IA faz parte das ferramentas de venda. A amostra tem mais de 750 agentes que usam Amadeus, Sabre e Travelport.

    Os agentes das Américas usam menos IA?

    A região é a mais cautelosa: 35% dos agentes das Américas dizem que não usam IA para vender. A própria pesquisa diz que isso pode mudar conforme as ferramentas entrarem no dia a dia.

    Para que o agente de viagens usa IA na venda?

    Para pesquisar opções, comparar conteúdos, montar recomendações e ganhar produtividade. A IA de conversa é o uso mais comum em todas as regiões.

    A IA pode comparar hotéis sozinha?

    Ela compara o que está escrito nas descrições, que 90% dos agentes usam para recomendar hotéis. Por isso a conferência de descrição, tarifa e política continua com o agente antes de a proposta ir para o cliente.

  • Black Friday de viagem se vende em outubro

    Black Friday de viagem se vende em outubro

    A Black Friday de viagem se vende em outubro, não em novembro. A oferta vem da operadora e já está sendo montada. O que decide a venda é a agência ter, antes disso, a lista de clientes separada, o interesse de cada um anotado e a mensagem pronta.

    Resumo rápido

    • As operadoras já estão montando a Black Friday, e a Orinter, por exemplo, prepara a dela com os principais fornecedores.
    • A oferta chega igual para todas as agências. A lista de clientes, não.
    • Meu checklist tem quatro passos para esta semana, e mais abaixo tem uma mensagem de WhatsApp pronta para copiar.

    Por que a Black Friday de viagem começa em outubro?

    Porque a oferta está sendo montada agora. E quem monta não é a agência.

    Um exemplo deste mês: a Orinter contou à PANROTAS que prepara com os principais fornecedores uma Black Friday para vender mais Estados Unidos, destino que já responde por 30% das vendas internacionais da operadora. A promessa é que seja a maior da história dela. E tem campanha que nem esperou novembro: a parceria com a UneHouses já está valendo e vai até 20 de janeiro.

    A promoção vai chegar.

    A pergunta que eu faria na sua agência é outra: quando ela chegar, para quem você vai mandar?

    O que acontece com a agência que espera a oferta chegar?

    Ela repassa promoção. E repassar promoção qualquer agência consegue fazer, no mesmo minuto que você.

    O roteiro costuma ser este: a arte da operadora chega, a agência posta no status, dispara para todos os contatos e espera. Quem responde só quer saber o preço.

    Repara no problema. Essa oferta chegou igual para todas as agências que vendem a mesma operadora: mesmo produto, mesma condição, mesma arte. Se você só tem o preço para mostrar, a disputa vai ser por preço, e nela sempre aparece alguém disposto a cortar mais a margem.

    Agora pense num cliente que pediu orçamento de Orlando para as férias de julho e não fechou porque achou caro. Quando a condição especial sair, uma mensagem com o nome dele, o destino que ele queria e a época que ele falou não é propaganda. É a continuação de uma conversa que ficou parada.

    A oferta é a mesma para todo mundo. O contexto, não.

    É a lógica do check-in online. O voo sai no mesmo horário para todos os passageiros, mas quem resolveu tudo antes vai direto para a sala de embarque. Em novembro, a agência que preparou a lista em outubro já está lá dentro enquanto as outras ainda estão na fila.

    Slide do carrossel de Daniel Turbox comparando a agência que espera a oferta da operadora e repassa promoção com a agência que preparou tudo em outubro e vende viagem

    O que a agência de viagens precisa fazer antes da Black Friday?

    Quatro passos. Nenhum depende de desconto, e todos cabem nesta semana.

    1. Separe a lista de quem já levantou a mão

    Comece pelos clientes que já mostraram interesse e não compraram. Abra o WhatsApp, o e-mail e o sistema que você usa, e procure três grupos:

    • Quem pediu orçamento e não fechou. É o grupo mais quente, porque já disse para onde quer ir.
    • Quem viaja todo ano. Esse cliente vai viajar de qualquer jeito. A pergunta é se vai comprar com você.
    • Quem já te disse “um dia eu vou”. Às vezes a condição da Black Friday é o empurrão que faltava para o “um dia” virar data marcada.

    Para isso, uma planilha simples já resolve.

    Checklist de Black Friday para agência de viagens, passo 1 de 4: separar a lista de clientes que pediram orçamento e não fecharam, que viajam todo ano ou que dizem que um dia vão viajar

    2. Anote o que cada cliente quer

    Para cada nome da lista, quatro informações: destino, época, com quem viaja e quanto pensa gastar. Eu acrescentaria uma quinta coluna, a que mais ajuda: por que não fechou.

    Se foi preço, a Black Friday é a resposta. Se foi data, férias que não saíram ou documento pendente, a promoção não muda nada, e mandar oferta para essa pessoa só gasta a paciência dela.

    Essa anotação é o que leva a oferta certa para a pessoa certa. Sem ela, volta o disparo para todos.

    3. Estude o produto antes de a oferta chegar

    Vá à capacitação da operadora agora, e não na semana da campanha. A própria Orinter reuniu agentes do Triângulo Mineiro em Uberlândia, no dia 6, para falar de Flórida, motorhome e casa de férias.

    Não foi só parque temático. Quem conhece o produto consegue oferecer o motorhome para a família que gosta de estrada, ou a casa de férias para o grupo grande que não quer se dividir em vários quartos de hotel.

    Quem não conhece o produto repassa o preço. Quem conhece vende a viagem.

    E pergunte ao seu contato comercial na operadora o que já dá para adiantar: destinos, fornecedores e como vai funcionar o apoio à agência durante a campanha.

    4. Deixe o atendimento pronto

    No dia da campanha, ninguém deveria estar escrevendo mensagem do zero. Deixe pronto agora:

    • uma mensagem escrita para cada perfil de cliente da sua lista;
    • a divisão da equipe, com quem responde cada grupo e quem fecha a venda;
    • as respostas rápidas salvas no WhatsApp Business, para ninguém improvisar a própria versão.

    Assim, quando a oferta chegar, só falta entrar o preço.

    Checklist de Black Friday para agência de viagens, passo 4 de 4: deixar o atendimento pronto, com mensagem escrita para cada perfil de cliente e a equipe sabendo quem responde o quê

    Qual mensagem mandar para o cliente antes da Black Friday?

    Uma mensagem que fala da viagem dele, não da promoção. Em outubro você ainda não tem preço, e nem precisa: o objetivo é confirmar se o interesse continua e pedir licença para avisar primeiro.

    Pode copiar e ajustar ao seu jeito de falar:

    “Oi, [nome]! Lembrei de você porque as operadoras estão preparando as condições de Black Friday. [Destino] em [época] ainda está nos seus planos? Se estiver, me conta quem vai junto que eu já deixo tudo separado e te aviso primeiro quando as condições saírem.”

    Ela não promete desconto nem porcentagem, porque você ainda não sabe qual vai ser a condição. O que ela leva é o nome da pessoa, o destino que ela queria e a prova de que alguém lembrou dela.

    Quem responder que sim vai para o topo da lista. Quando a condição sair, a segunda mensagem é curta:

    “[Nome], saiu a condição que eu te falei. Separei uma opção para [destino] em [época] para [quantas pessoas]. Te mando os detalhes?”

    Duas mensagens. Nenhuma delas é post genérico.

    Os erros que eu evitaria na Black Friday de viagem

    O primeiro é anunciar desconto antes de a operadora confirmar a condição. Promessa que não se cumpre vira cliente desconfiado, e cliente desconfiado não volta na próxima viagem.

    O segundo é achar que a Black Friday é a única venda do fim do ano. Outubro também é a reta final para quem vai viajar no Réveillon e em janeiro, e a mesma lista serve para essas conversas.

    O terceiro é esquecer a lista em dezembro.

    Ela fica com a agência quando a campanha da operadora acaba. Quem comprou na promoção é o cliente da próxima viagem. Quem não comprou agora pode voltar nas férias de julho, se o motivo estiver anotado.

    A oferta é da operadora. A lista de clientes é sua.

    Se este texto fez sentido, manda para quem vende com você e combina de separar a lista ainda esta semana. Em novembro, eu quero ver agente de viagens vendendo viagem, e não só repassando promoção.

    Perguntas frequentes

    Quando a agência de viagens deve começar a se preparar para a Black Friday?

    Em outubro, antes de a oferta chegar. As operadoras já estão montando as condições, e a agência precisa desse tempo para separar a lista, anotar o que cada cliente quer e estudar o produto.

    O que a agência precisa ter pronto antes da Black Friday de viagem?

    A lista de quem já mostrou interesse, o que cada cliente quer, o produto estudado com a operadora e as mensagens escritas por perfil. No dia da campanha, só falta entrar o preço.

    Posso anunciar desconto antes de a operadora divulgar a condição?

    Eu não faria. Sem a condição confirmada, qualquer número é chute. Em outubro, o melhor é confirmar o interesse do cliente e avisar que ele vai saber primeiro.

    Para quem mandar as ofertas de Black Friday da agência?

    Para quem já mostrou interesse naquele destino ou naquela época, com uma mensagem que cita a viagem da pessoa. Mandar a mesma arte para todos os contatos coloca a sua agência numa disputa só de preço.